terça-feira, 11 de novembro de 2008

Multado!

Indo jantar com amigos, de repente me dei conta que a garagem de bicicletas do instituto iria fechar às 20, então fui buscar. Apenas para ser multado 5 minutos após, por não ter luzes na bicicleta! 20 euros por estar com o dínamo estragado - e o pior, com recém compradas luzes a bateria em casa. Tudo muito cordial e profissional de ambas as partes, polícia de primeiro mundo é outra coisa. O policial até pediu para eu soletrar o meu nome e inclusive escreveu errado duas letras, apesar de eu ter sido muito claro. Mas eu o corrigi. Depois fiquei sabendo que se o nome não está escrito com a grafia exata quando a multa chega pelo correio, a carta pode ser devolvida e a multa não pode ser cobrada. Brasileiro estúpido...

Het Prinsehof

Het Prinsenhof é o museu de Delft localizado em uma casa onde viveu e morreu Willem van Oranje, o líder holandês da Guerra dos Oitenta Anos, na qual a Holanda conquistou sua independência do reino espanhol de Felipe II no século XVI. Willem é, portanto, uma espécie de herói nacional aqui. No museu é possível entender porque a região de língua holandesa se divide entre dois países - Holanda e parte da Bélgica: é que a parte dos Países Baixos que conquistou independência constitui o que hoje é a Holanda; a parte que permaneceu sob domínio espanhol é a Bélgica (Países Baixos Espanhóis). Daí uma certa diferenciação do holandês falado neste último país, por vezes chamado de flamengo; trata-se da mesma língua, no entanto, no máximo um dialeto.

A diferenciação não se deu apenas na língua: após a independência, a Holanda teve um rápido desenvolvimento capitalista, atingindo seu apogeu no século XVII, tornando-se ponto atrator de filósofos, cientistas, artistas e livres-pensadores; enquanto a Bélgica espanhola por muito tempo ficou para trás. Para complicar: às vezes se fala em Países Baixos para referir-se à região histórico-geográfico-cultural que compreende a Holanda e a Bélgica de língua holandesa; e o nome oficial da Holanda é Países Baixos - Holanda do Sul e Holanda do Norte são duas províncias. Mas os próprios holandeses quase sempre falam Holland, e não Nederland. Nem eles se entendem.

Aliás, Delft beneficou-se muito com a era de ouro holandesa, pois muitos de seus burgueses investiram na Companhia das Índias, depois que o comércio de cerveja entrou em declínio. A riqueza deste período é bem retratada por Vermeer. Pouco depois - e como conseqüência do comércio internacional holandês - a indústria da porcelana floresceu. A Delft Blue é famosa até hoje.

Uma pena que o museu trate a Guerra dos Oitenta Anos de forma puramente idealista, como se eles tivessem guerreado por oitenta anos apenas por visões religiosas - Willem era protestante e defendia a liberdade religiosa, enquando o reino espanhol alinhava-se com Igreja. Nenhuma palavra sobre a ascensão do capitalismo, da burguesia e sua sede de secularização, e a íntima relação do protestantismo com isso. Pedir uma análise marxista talvez seja demais, mas pelo menos um pouquinho de Max Weber não faria mal. E para completar, um vídeo no qual eles comparam o assassino de Willem com o fanático islâmico que assassinou o cineasta Theo van Gogh no século XXI. Circunstâncias histórias completamente diferentes, uma clara propaganda anti-islâmica. Aliás, Willem van Oranje foi assassinado nesta casa, supostamente nesta escada aí:


A história oficial (pouco crível) diz que suas últimas palavras foram: "Meu Deus, tende piedade desta alma; meu Deus, tenha piedade deste povo [holandês]".

A pena do assassino de Willem (o infeliz foi capturado!) foi a seguinte: mão direita queimada com ferro em brasa, carne de seu corpo arrancada de seus ossos com pinças em seis diferentes locais, esquartejamento em vida, coração arrancado de seu peito e esfregado no rosto e, finalmente, cabeça arrancada. Para inquisidor nenhum colocar defeito.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Vermeer Centrum

O pintor Vermeer, "o mestre da luz", nasceu e viveu em Delft, e por isso mereceu o Vermeer Centrum. Não é exatamente um museu, pois os originais não estão lá (estão espalhados entre Amsterdam, Haia e outras), mas vale a visita. Vermeer viveu no século XVII, a era de ouro da Holanda, que com a Companhia das Índias viveu o período mais próspero de sua história. As artes e as ciências floresceram na cidade.

Vermeer retratava a vida da burguesia de Delft nesta época, com excelente técnica para representar luz, cores e reflexos. Seus quadros geralmente expressam situações de paz, tranquilidade, harmonia, alegria:





Agora um pouco de ácido crítico que não estava expresso no centro: há algo de cruel em Vermeer. Ele parece retratar a utopia burguesa de dominação sem resistência. Os empregados sempre aparecem absolutamente submissos; não há o menor traço de dialética, de não-idêntico. A crueldade se torna mais patente quando se pensa que a tranquilidade e o luxo de Delft no século XVII eram sustentados pelo sangue da escravidão da Companhia das Índias. Tudo bem, nada disso tira o mérito de Vermeer como pintor. Reparar no reflexo da leitora da carta, na janela, acima. Mestre da luz.

Festa de aniversário

Aniversariante afegão, convidados do Brasil, Suriname, Namíbia, Itália, Alemanha, Estados Unidos, Colômbia, Antilhas, Equador, Nepal, Albânia. Tudo correu bem, com uma dificuldade inusitada: qual a hora de cantar parabéns, antes de jantar, depois de jantar, antes do bolo, depois do bolo? Cada um tinha o seu costume. Por essa ninguém esperava. Resolvido sem guerra, felizmente.

Rotterdam

Tão perto de Amsterdam (1 hora de trem), tão diferente. Enquanto Amsterdam é naturalmente bela, Rotterdam parece que passou por várias plásticas, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto.

A analogia não é de todo incorreta. Rotterdam foi bombardeada na Segunda Guerra Mundial, naquela que talvez tenha sido a maior estupidez da guerra depois dos campos de concetração e da bomba atômica. Todo o centro foi destruído, mais ou menos como se bombardeassem as imediações da Borges e da Andradas em Porto Alegre. Então, ao contrário de todas ou quase todas as cidades holandesas, Rotterdam não possui um centro histórico. Abaixo um bom vídeo o bombardeio:



Impressiona em Rotterdam o número de imigrantes. Não é por acaso que o novo prefeito é marroquino. Segundo um colega senegalês que mora em Rotterdam, a população imigrante é maior do que a nativa. E a impressão que se tem é essa mesma. Arianos são minoria, o que mais se vê é gente com aparência de africano, indiano, turco, indonésio, surinamês.

Rotterdam é a capital industrial e financeira da Holanda, e possui um dos maiores portos do mundo (por muito tempo foi o maior). A rivalidade com Amsterdam vai além do futebol - Ajax x Feyenoord: segundo os Rotterdammers, a cidade deles produz a riqueza, e Amsterdam a gasta. Mas, se o valor de uso da cidade é a festa, como já dizia Henri Lefebvre, então a generosidade de Amsterdam a torna mais cidade do que Rotterdam. Para mim, pelo menos. Mas nem por Rotterdam deixa de ser interessante.

A cidade é muito comparada com Nova Iorque. Não coneheço os EUA, mas ela de fato parece americanizada. Logo na saída da estação de trens (que está sendo totalmente reformada), arranha céus.



Caminhada pela cidade.

A marina e a Erasmus Brug (Ponte Erasmo), talvez o maior ícone da cidade. O dia nublado impede uma melhor visão da ponte, mas a foto é autêntica, afinal aqui está quase sempre chovendo.




O monumento Verwoeste Stad (Cidade Devastada), com a sua evocação do desespero e o furo no peito simbolizando como Rotterdam foi atingida em seu coração pelo ataque nazista:


As casas cúbicas. Sim, tem gente que mora ali, com carros passando embaixo, no túnel. Ou o sistema de isolamente acústico é excelente, ou eles não dormem.

A biblioteca pública de Rotterdam é um capítulo à parte. Apesar de a arquitetura funcionalista-futurista não fazer muito o meu gênero, é de tirar o chapéu: seis pisos de livros.






A prefeitura e o Monument voor de gevallenen - "munumento aos caídos" -, dois homens, uma mulher e uma criança representado o passado, o presente e o futuro, um tributo ao povo de Rotterdam que sacrificou-se pela liberação do país.



E cenas diversas...






quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Microscópio

Em uma aula de laboratório sobre eutrofização - quem não sabe o que é isso deveria saber, pois é um dos maiores problemas relacionados a recursos hídricos do século XXI - fiquei sabendo que o microscópio foi inventado por um cidadão de Delft, Antoni van Leeuwenhoek, no século XVII.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Amsterdam!

Primeira passada por Amsterdam. Uma hora de trem desde Delft (os holandeses acham que é muito longe). Cidade especial, merecerá dezenas de visitas. Segundo o livro do anarquista Matteo Guarnaccia, Amsterdam é o berço da contracultura.

Logo na saída da estação de trens, canal, barcos e bicicletas. Horas no Museu Van Gogh, onde pude ver os originais de Os Girassóis e Noite Estrelada, e muitos outros. Ao lado está o Rijksmuseum, onde estão as obras de Rembrandt. Esse fica para outra vez.

Já à noite, caminhada pelo Jordaan, antigo bairro proletário com uma rica história de revoltas. Bonito e agradável, mas hoje está na moda morar lá, e caro. Por isso o bairro deve ter perdido muito de seu encanto. A geografia do poder se faz presente: o bairro foi "modernizado" nos anos 70 (após as badernas armadas pelos PROVOS), alguns canais foram fechados, provavelmente pela mesma razão que as avenidas de Paris foram alargadas após a comuna: facilitar o avanço dos tanques.

Para jantar, um dos muitos restaurantes turcos. Cardápio em holandês, nomes dos pratos em turco, pedido meio às cegas: veio uma ótima costela de cordeiro com molho apimentado.

(A estação de trens)

(Jordaan à noite)

(uma avenida qualquer)

(Museu Van Gogh)

(Rijksmuseum)